Pesquisadores do Instituto Pasteur se mobilizam no combate ao vírus Zika que se alastra na América do Sul.

Por sua expertise de longa data na área das arboviroses, o Instituto Pasteur, assim como vários institutos da rede internacional dos Institutos Pasteurs, estão mobilizados, desde a aparição dos primeiros casos, para lutar contra essa epidemia. Desde novembro de 2015, o Instituto Pasteur da Guiana Francesa confirmou a primeira detecção do vírus no Suriname, e em 18 de dezembro de 2015, ele identificou o primeiro caso na Guiana Francesa. Depois da confirmação dos primeiros casos, essa mesma equipe publicou na revista The Lancet o sequenciamento completo do genoma do vírus Zika responsável pela epidemia, o que permitiu mostrar uma homologia quase completa com as estirpes causadoras da epidemia que se alastrou no Pacífico em 2013 e 2014.

Desde 2015, a Rede Internacional dos Institutos Pasteur (RIIP) trabalha em estreita colaboração com seus parceiros brasileiros, através de um Acordo de Cooperação Tripartite estabelecido entre a Fiocruz, Universidade de São Paulo e o Instituto Pasteur. O Instituto Pasteur através deste acordo mobilizou várias unidades de pesquisa de Paris et da RIIP que trabalham com redes, instituições e organizações brasileiras locais a fim de desenvolver testes de diagnóstico sorológico e molecular, trabalhar na concepção de novas vacinas e fornecer conselhos a respeito das opções existentes para lutar contra esses vetores. Suas equipes fazem também estudos epidemiológicos, visando, sobretudo, a uma melhor compreensão dos sintomas neurológicos observados nos pacientes, e em particular nas mulheres grávidas. 

Desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico molecular e sorológico

 > A Célula de Intervenção Biológica de Urgência (CIBU), dirigida por Jean-Claude Manuguerra, faz parte do Centro Colaborativo da OMS para referência e pesquisa em arbovírus e febres hemorrágicas virais. Várias equipes da CIBU estão implicadas no diagnóstico e pesquisa sobre o vírus Zika: 

O Polo de Identificação Viral (PIV) desenvolveu e validou uma técnica de sorologia que permite realizar rapidamente o diagnóstico do vírus Zika e outros arbovírus. Essa tecnologia foi expandida no Pacífico, na Ásia e na África, e está sendo aplicada na América do Sul, a fim de auxiliar na luta contra a epidemia. O PIV desenvolve um teste molecular simples, rápido, pouco dispendioso que permite ganhar tempo e aumentar a eficácia no atendimento aos pacientes. 

O Polo de Genotipagem de Patógenos (PGP) por sua vez realizou o sequenciamento das estirpes do vírus Zika da epidemia na Polinésia Francesa. Além disso, o PGP é parceiro do Instituto Pasteur da Nova Caledônia para o sequenciamento dos isolados que circulam atualmente no Pacífico, na Ásia e na África.

> A Unidade Genética funcional de Doenças Infecciosas, dirigida por Anavaj Sakuntabhai, trabalha com a susceptibilidade genética do homem à infecção pelo vírus Zika. Em colaboração com Amadou Sall (Instituto Pasteur de Dakar) os pesquisadores mensuraram a taxa de anticorpos de várias arboviroses em uma população local. Pelo estudo dos genes nas famílias, eles procuram identificar uma região do genoma que contenha um gene de resistência ao vírus Zika. Para isso, eles vão testar genes candidatos que se situam nessa região, graças a modelos de infecção in vitro. Eles estudam vários modelos de camundongo para identificar o mais adequado, em colaboração com a Unidade de Genética Funcional do Camundongo.
 
> O Instituto Pasteur da Guiana Francesa está instalado no laboratório de virologia, dirigido por Dominique Rousset, o Centro Nacional de Referência dos Arbovírus, laboratório associado para a região Antilhas-Guiana. O laboratório é então legitimamente solicitado para quaisquer suspeitas de arbovirose e especialmente para emergências nos territórios franceses das Américas. É assim que os pesquisadores puderam confirmar desde novembro de 2015, por PCR em tempo real, os 5 primeiros casos no Suriname. Foi em dezembro que o laboratório detectou, primeiramente, casos de infecção importadas do Suriname, e em seguida casos autóctones.

Graças a essas amostras, os pesquisadores do Instituto Pasteur da Guiana puderam sequenciar todo o genoma do vírus. O resultado publicado em The Lancet em 7 de janeiro de 2016, mostra que o vírus que circula atualmente está muito próximo do que circulava na Polinésia Francesa em 2013-2014.
 
> Em 2014, após a epidemia de vírus Zika na Nova Caledônia, o Instituto Pasteur do arquipélago teve que administrar um fluxo importante de pedidos de diagnóstico. Nesse contexto, os pesquisadores da Unidade de Pesquisa e Perícia Dengue e outras Arboviroses, dirigida por Myrielle Dupont-Rouzeyrol, demonstraram que o vírus Zika permanece por mais tempo na urina do que no sangue, descoberta que poderia então possibilitar um melhor diagnóstico biológico dos pacientes (Gourinat et al, 2015). Como extensão a esses resultados preliminares, os pesquisadores estão colaborando com um projeto realizado com o Instituto Científico de Saúde Publica (Bélgica), o Instituto Pasteur da Guiana e o Instituto Pasteur (Paris), que visa a melhorar o diagnóstico dessas arboviroses e, particularmente, o do vírus Zika, através da comparação da utilização das amostras de urina e saliva e das amostras de sangue. A unidade coordena também, com o Instituto Pasteur de Dakar, (e com participação do Instituto Pasteur do Camboja, o Instituto Pasteur do Laos, o Instituto Pasteur de Paris e o Instituto Louis Malardé) um projeto que tem como objetivo avaliar a capacidade de diferentes mosquitos de transmitir o vírus Zika durante a picada e estudar a diversidade genética do vírus Zika na África, Ásia, Pacífico e Américas.

> Em dezembro de 2015, o Instituto Pasteur de Dakar transferiu seu ’know-how’ e formou durante 4 semanas as equipes da Universidade de São Paulo (USP) para o cultivo de isolados, uso de seu "laboratório de campo" (lab in a suit case) e também contribuiu com ferramentas moleculares e biológicas para o desenvolvimento de testes específicos de diagnóstico para detecção do vírus Zika. Desde então, o Institut Pasteur (de Paris e da Rede Internacional) têm apoiado a reativação da Rede de Diversidade Genética de Vírus (VGDN) que criou uma nova força tarefa "Rede Zika" que envolve mais de trinta grupos do Estado de São Paulo, em colaboração com equipes nacionais e internacionais (RIIP, Fiocruz, Instituto Butantan, Unicamp, Unesp, Adolfo Lutz, Emilio Ribas, RIIP ...) e hospitais associados (Clínicas, São José do Rio Preto, Botucatu, Universitário, Ribeirão Preto, Unicamp...).

Epidemiologia – entendendo a relação entre o vírus Zika e as complicações neurológicas

> Em colaboração com o Escritório de Vigilância Sanitária na Polinésia Francesa, o Centro Hospitalar da Polinésia Francesa e o Instituto Louis Malardé, a Unidade de Epidemiologia de Doenças Emergentes (UEME), dirigida por Arnaud Fontanet no Instituto Pasteur, trabalham desde janeiro de 2014 a respeito de uma epidemia de Zika que atingiu a Polinésia Francesa de outubro de 2013 a abril de 2014.
 
O projeto, financiado em parte pelo LaBex IBEID, visa a elucidar a relação entre o vírus Zika e o aumento nítido de manifestações neurológicas graves que envolvem paralisia, como a síndrome de Guillain-Barré (GBS), observada durante o período epidêmico do vírus Zika. Esse trabalho envolve tanto as equipes da Célula de Intervenção Biológica de Urgência (CIBU) quanto a unidade Genética Funcional de Doenças Infecciosas do Instituto Pasteur.

Após o aumento suspeito da incidência de microcefalia, a UEME procura também descrever a incidência dessa má-formação congenital antes e depois da epidemia, determinar se a infecção por Zika na mulher durante a gravidez é a sua causa e estimar o período de gravidez que mais apresenta riscos em caso de infecção, bem como a probabilidade de má-formação na criança cuja mãe teria contraído o vírus.

Pesquisa sobre o mosquito vetor

> Em colaboração com o Instituto Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro (Brasil), os pesquisadores da Unidade Arbovírus e Insetos Vetores, dirigida por Anna-Bella Faillou, testaram a receptividade (capacidade de contrair o vírus) dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus do Brasil e da Flórida onde essas duas espécies coabitam. Além disso, eles avaliaram a competência vetorial (capacidade de transmitir o vírus) do Aedes aegypti da Guiana Francesa, Martinica e Guadalupe, onde essa espécie está presente sozinha.

Essas populações de mosquito recentemente recolhidas no território foram infectadas em laboratório de alta segurança de nível P3 com o vírus Zika, de genótipo asiático, que provém do Instituto Pasteur da Nova Caledônia. Esse vírus é quase idêntico ao que circula atualmente na América Central e na América do Sul.
O objetivo desses trabalhos é determinar a contribuição das duas espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus na dinâmica da epidemia de Zika nas Américas. Esses dados permitirão avaliar a dimensão que poderia tomar a epidemia e saber se ela seria comparável à da chikungunya que começou nas Américas (Caribe, Ilha de São Martinho em outubro 2013) com hoje mais de 45 países afetados e mais de 1,7 milhões de casos (fonte: CDC).

A fim de antecipar a eventual implantação do vírus Zika na França e na Europa, a exemplo do que aconteceu com a chikungunya e a dengue (casos autóctones de chikungunya na França em 2010, 2014; e de dengue em 2010, 2014 e 2015) transmitidos pelo Aedes alboictus, os pesquisadores testaram duas populações de Aedes aegypti da Ilha da Madeira e duas populações de Aedes albopictus do Sul da França (Nice e Bar-sur-Loup).

Esse dois projetos foram financiados pelo LaBex IBEID (dirigido por Pascale Cossart e Philippe Sansonetti) e o projeto europeu DENFREE (coordenado por Anavaj Sakuntabhai).
 
> A equipe da Unidade de Entomologia Médica, dirigida por Romain Girod no Instituto Pasteur da Guiana, está trabalhando no desenvolvimento de sistemas de armadilhas acoplados a iscas doces para a detecção precoce da circulação do vírus Zika na Guiana. Trata-se, para os pesquisadores, de testar em laboratório, e no próprio local, novas ferramentas de vigilância entomológica e virológica cujo objetivo é identificar as zonas e os períodos de transmissão mais propícios ao vírus, a fim de orientar de forma eficaz as ações de prevenção e de luta antivetorial. Trabalhos anteriores realizados no âmbito da epidemia de chikungunya que atingiu a Guiana em 2014-2015 já mostraram as potencialidades das ferramentas desenvolvidas. É nesse sentido que prosseguem os trabalhos atuais sobre o vírus Zika.
 
> No Instituto Pasteur de Guadalupe, o laboratório de Entomologia médica, dirigido por Anubis Vega-Rua, participou da avaliação da competência vetorial das populações de mosquitos das Américas em relação ao vírus Zika, no âmbito de um projeto coordenado por Anna-Bella Failloux no Instituto Pasteur em Paris. O laboratório também trabalhou com a Agência Regional da Saúde de Guadalupe (ARS) em ações de sensibilização sobre o risco que representa o vírus Zika para a população de Guadalupe. Atualmente o laboratório e a ARS estão definindo uma nova estratégia de intervenção e de investigação entomológica que poderia ser aplicada em caso de detecção de casos autóctones de Zika em Guadalupe. Além disso, o laboratório de biologia médica do Instituto Pasteur de Guadalupe realiza o diagnóstico molecular das infecções pelo vírus Zika.

> O Grupo Arbovírus, na Célula de Intervenção Biológica de Urgência (Instituto Pasteur, Paris) está voltado para o desenvolvimento de modelos animais a fim de melhor compreender os efeitos patológicos observados no homem. Além disso, ele procura definir melhor a interação entre o Vírus Zika e os mosquitos Aedes Aegypti (vetor principal) e Aedes albopictus (vetor potencial de emergência e/ou de propagação do vírus a nível mundial) a fim de melhor compreender os mecanismos implicados na transmissão vetorial desse vírus e poder definir novos alvos para bloquear a infecção de novos hospedeiros vertebrados.
— 
 
Fevereiro de 2016  

Equipes do Instituto Pasteur mobilizadas no combate ao vírus Zika
 
No Instituto Pasteur em Paris:

 
- Unidade de Perícia Arbovirus e Insetos Vetores, dirigida por Anna-Bella Failloux
 
- Unidade de Epidemiologia de Doenças Emergentes, dirigida por Arnaud Fontanet
 
- Célula de Intervenção Biológica de Urgência, dirigida por Jean-Claude Manuguerra
 
- Unidade Genética Funcional de Doenças Infecciosas, dirigida por Anavaj Sakuntabhai
 

Na rede internacional dos Institutos Pasteur:
 
O Instituto Pasteur da Guiana
 
- Centro Nacional de Referência dos Arbovírus, laboratório associado para a região Antilhas-Guiana, dirigido por Dominique Rousset
 
- Unidade de Entomologia médica, dirigida por Romain Girod
 
- O Instituto Pasteur de Dakar (Senegal)
Unidade de Arbovirologia, dirigida por Amadou Sall
 
- O Instituto Pasteur da Guadalupe
Laboratório de Entomologia médica, dirigido por Anubis Vega-Rua
 
- O Instituto Pasteur de Nova Caledônia
URE Dengue e outras Arboviroses, dirigido por Myrielle Dupont-Rouzeyrol
 
 
Nos institutos parceiros:

Instituto Oswaldo Cruz – Fiocruz (Rio de Janeiro)
Laboratório de Transmissores de Hematozoários, dirigido por Ricardo Lourenço-de-Oliveira

- Mais informações: http://www.pasteur.fr/fr/institut-pasteur/presse/fiches-info/zika#sthash.CRJSoWdt.dpuf

publié le 01/03/2016

haut de la page