Para que as bombas não acabem com a arte - Jornal O Globo - 27/11/2016

Durante a Batalha de Madrid (Guerra Civil Espanhola 1936-39) a maior parte das pinturas do Museu do Prado encontraram abrigo em Genebra, na Sociedade das Nações (precursora da Organização das Nações Unidas). Porém, mais recentemente, obras-primas do Museu Nacional do Afeganistão, do Museu de Palmira (Síria) e manuscritos centenários de Timbuktu (Mali) não tiveram a sorte de encontrar um local seguro para escapar da destruição e do fanatismo do ISIS (o chamado Estado Islâmico) e de outros grupos terroristas. Algumas dessas obras foram completamente destruídas, enquanto outras vêm sendo contrabandeadas para traficantes em troca de armas. Tais obras não são meros objetos exóticos oriundos de lugares distantes. Elas pertencem ao patrimônio mundial da Unesco. Logo, são parte da nossa herança cultural comum.

Nós não podemos ficar parados! A comunidade internacional precisa agir imediatamente!

A França e os Emirados Árabes Unidos, em estreita parceria com a Unesco, irão, nesse sentido, sediar, em Abu Dhabi, dias 2 e 3 de dezembro, a Conferência Internacional para a Proteção do Patrimônio Cultural Ameaçado em Zonas de Conflito. São dois os propósitos.

Em primeiro lugar, criar um fundo internacional para apoiar medidas preventivas de proteção, evacuação de emergência de obras de arte e restauração das que tiverem sido danificadas. As contribuições serão voluntárias tanto para instituições públicas quanto privadas. A ideia é arrecadar US$ 100 milhões.

Em segundo lugar, criar uma rede de países em condições de oferecer lugares seguros para os países que desejem abrigar por tempo determinado seus tesouros ameaçados. Os países recebedores deverão seguir as normas da Convenção de 1954 da Unesco para a proteção do patrimônio cultural em caso de conflitos armados, ou seja, respeitar os critérios de conservação, integridade e restituição das valiosas peças. A França já planeja abrigar obras ameaçadas em galpões do Museu do Louvre, que estão sendo construídos no norte da França.

Durante a conferência, o Sheik Mohammed Bin Zayed e o Presidente François Hollande receberão representantes de alto nível de mais de 40 países convidados – entre os quais o Brasil – bem como profissionais ligados ao tema, ONGs, fundações privadas e diretores de museus. A parceria entre Paris e Abu Dhabi nesse esforço urgente baseia-se em uma longa e duradoura cooperação no âmbito da cultura (a França vem ajudando os Emirados Árabes na criação do primeiro museu universal de arte no mundo árabe, o Louvre Abu Dhabi), da construção da paz e da luta contra o terrorismo no Iraque e na Síria.

Para ofercer um futuro à herança cultural dos povos da África e do Oriente-Médio, precisamos de cada um de vocês, pois trata-se da nossa herança comum, que devemos preservar. Esperamos que nós, e especialmente eles, possamos contar com o apoio do Brasil.

Laurent Bili, Embaixador da França no Brasil
Khalid Khalifa Al-Mualla, Embaixador dos Emirados Árabes Unidos no Brasil

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publié le 28/11/2016

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