Abertura da Cimeira Mundial das Regiões para o Clima - Intervenção de Laurent Fabius (11/10/2014)

Senhor Governador,
Senhoras e Senhores Presidentes,
Senhoras e Senhores,
Caros Amigos,

Por ocasião da Conferência de Varsóvia, a COP 19, quando a França foi designada para sediar em 2015 a COP 21 – gostaria de ressaltar que essa indicação foi facilitada pelo fato de sermos os únicos candidatos – muitos delegados vieram conversar comigo.
Havia três categorias. Os primeiros, talvez os mais cordiais, mas também os menos experientes me felicitaram. Os segundos falaram que não ia ser simples e os terceiros, -os mais diplomáticos – me desejaram: “good luck”.
Isso resume tudo.
O antigo Governador da Califórnia acaba de explicar com eloquência os motivos pelos quais não se deve esperar o mês de dezembro de 2015 e a COP21 em Paris para começarmos a nos mobilizar. O sucesso de Paris em 2015 se constrói a partir de agora. Serei prudente em meus propósitos por que por enquanto não estamos encarregados desse dossiê e, de qualquer forma, os que acolhem e presidem a cimeira, representam somente um dos elementos de sucesso.

Atualmente, são nossos amigos peruanos que estão encarregados do mês de dezembro. Mas, de certa forma, vocês são todos e todas responsáveis. Não se trata somente de um assunto de responsabilidade dos Governos, mesmo se em Paris, será preciso que os responsáveis levantem o dedo para dizer sim.
Qual é o objetivo? Idealmente -é preciso ser idealista para conseguir fazer com que as coisas avancem - nós visamos ao estabelecimento de um acordo durante a COP 21, que inclua quatro pilares:
O primeiro, o mais abordado, que é indispensável, porém muito difícil, seria alcançar um acordo normativo que seja universal, mas também diferenciado, já que os países não estão todos na mesma situação. Um acordo que nos permita não ultrapassar o aumento de temperatura de dois graus, mesmo que isto seja, como todos sabem, extremamente difícil. Não preciso citar novamente as avaliações científicas: se não agirmos rapidamente e energicamente, não serão dois graus e sim quatro, cinco ou ainda seis graus que deveremos confrontar. Não se trata unicamente do aquecimento climático, não é cientificamente exato, pois em algumas partes do globo, o aquecimento climático seria na realidade, um resfriamento. Não é também uma mudança, pois esse termo pode ser interpretado como positivo. Trata-se de alterações climáticas; é disso que se trata.
Não precisamos esperar o ano de 2050. Atualmente, todos os países e os cidadãos de todos os países podem sentir os efeitos dessas alterações climáticas. Não podemos confundir aqui, nessa assembleia de especialistas, a meteorologia com a climatologia. A meteorologia é a previsão da temperatura que faz em um dia em um determinado lugar. A climatologia nos mostra desde já que as secas estão mais graves, que os tufões estão mais extensos, que as chuvas estão muito mais fortes, que o nível dos oceanos está subindo, que os oceanos estão mais acidificados, e que a fome se agrava, etc...

Não é para amanhã ou depois de manhã, é para hoje.
Lutar para alcançar o objetivo de um acordo universal e diferenciado é complicado mas indispensável.
Segundo objetivo: em Varsóvia todos os países se engajaram, de preferência antes da primavera do ano que vem, a apresentar suas propostas para os próximos anos até 2050, para revelar suas metas e previsões no que diz respeito a cada um.
Terceiro objetivo: o financiamento e a tecnologia. É essencial, do ponto de vista econômico, se queremos mudanças, atingir um novo modelo de desenvolvimento, é preciso que os financiamentos acompanhem esse processo. É essencial também por razões políticas, pois não conseguiremos que certos países acompanhem essa evolução se não formos capazes de lhes propor financiamentos.
Sobre a tecnologia, o Governador falou bem, é também essencial, pois se queremos que os carros, os métodos para o aquecimento e a construção evoluam, isso requer tecnologias já existentes e que serão cada vez mais acessíveis.
Além do acordo universal, além dos compromissos assumidos pelos países, eis o terceiro elemento: avanços no âmbito dos financiamentos e das tecnologias.
O quarto objetivo compreende tudo o que vão propor e se comprometer a realizar as regiões, as cidades e os setores econômicos. É o conjunto de tudo isso que, se nos empenharmos bem daqui até lá, permitirá alcançar o sucesso da “aliança de Paris para o clima”.
Existe um certo números de etapas significativas até dezembro de 2015, mas na realidade, as etapas representam o dia a dia na vida de cada cidadão.
Foi realizada a Conferência de Nova York – sobre a qual falarei algumas palavras em instantes – bem sucedida e útil. Estão acontecendo, nesse instante, reuniões preparatórias em Lima, e acontecerá, em alguns dias, a cimeira europeia que deverá decidir se a Europa conseguirá sim ou não, entrar em acordo. É essencial que a Europa chegue a um consenso. Se ela quer ter representatividade junto aos outros países do mundo, ela precisa existir. Ainda não chegamos lá, não é fácil, pois tal ou tal país, por tal ou tal razão, se mostra reticente. É essencial alcançarmos um acordo e um acordo ambicioso no final do mês de outubro em relação a Europa.
Logo após, teremos compromissos financeiros para a contribuição junto ao fundo verde. E finalmente, iremos a Lima no final desse ano. Será muito importante, nossos amigos peruanos conseguirão alcançar um acordo entre os países presentes para traçar um esboço do que representará esse acordo universal do ano que vem em Paris.
Enquanto isso, uma série de eventos acontecerá e também a publicação, no início do mês de novembro, de um novo relatório do GIEC, que deverá esclarecer temas que ainda não foram abordados.
Eis o caminho que nos conduzirá a Lima, passando pela Austrália e o G20, e em seguida, por outras etapas, até Paris.
Eu citava Nova York. Há duas ou três semanas atrás, sobre a iniciativa de Ban Ki-Moon, que realizou um trabalho formidável – e cumprimento aqui Mary Robinson, seu enviado especial – vivemos dois ou três dias extremamente produtivos em Nova York.

O começo foi marcado por uma grande manifestação nas ruas de Nova York. Eu estava lá e devo confessar que fiquei extremamente feliz de ter a oportunidade de participar de uma manifestação, pois quando se é membro do Governo, é muito difícil participar de manifestações. Em geral, elas são contra o Governo, e por esse motivo, fica impossível dissociar-se. Mas lá, não se tratava nem um pouco de uma manifestação contra, mas a favor. Ela foi muito calorosa. Aqui na França, estamos acostumados com as manifestações, mas em Nova York, é mais raro e geralmente há menos pessoas. Havia entre 300.000 a 400.000 pessoas com olhos atentos sobre nós.

No dia seguinte, 120 Chefes de Estados e do Governo subiram nos palanques para apresentar, - com palavras às vezes, ao meu ver, não muito precisas -, seus compromissos com um tom, no geral, muito positivo. Eles explicaram que era necessário alcançar esse acordo, que era imprescindível e que Paris deveria ser um sucesso. Depois, tivemos o comprometimento importante de cidades e de empresas, foi quando percebi uma mudança. Ninguém subiu no palanque dizendo que cientificamente era duvidoso. Todos concordavam que era necessário. É uma mudança muito importante, o ceticismo climático existe ainda, mas somente em alguns locais. Simplesmente, ele enfrentou um fatalismo climático. Muitos falam que o fenômeno existe, mas que é excessivamente ambicioso para nós; não, negativo. A Conferência de Nova York foi um sucesso, mesmo que tenhamos lastimado que os financiamentos anunciados não tenham se concretizado.
Não estamos aqui para um debate técnico a esse nível, mas todos sabem que precisamos contribuir com o que chamamos de “fundo verde”, a título de 10 ou 15 bilhões de dólares.
Por enquanto, temos 2 bilhões e 300 milhões de dólares em caixa: um bilhão trazidos pelos nossos amigos alemães, um bilhão pelos franceses e 300 milhões por alguns outros países. Se fizerem os cálculos, verão que muitos países ainda devem contribuir.

Penso que as regiões desempenham um papel absolutamente essencial. Pois é nelas que constatamos o fenômeno das mudanças climáticas. Os cidadãos moram nas regiões e nas cidades, e é nesse âmbito que se dá a conscientização. As regiões exercem um papel essencial, pois começaram – e o Governador nos mostrou de uma forma magistral, no que se refere à Califórnia – a agir de fato. Um dos riscos que encontramos diante dessa necessidade de agir, é que nos questionam aonde se encontram as soluções. As soluções existem, realmente, nas regiões e nas cidades. Além disso, as regiões tem evidentemente um papel importante a desempenhar, pois elas mesmas devem tomar decisões para antecipar as necessidades e se adaptar. Foi o que foi feito na Califórnia, o que pode ser feito em certas regiões da África, o que está sendo feito na China e em uma série de regiões. O que está sendo feito, mesmo nos países onde os Governos são reticentes, como o do Canadá e da Austrália, é aí onde o esforço deve ser levado. Não pode ser amanhã, nem depois de amanhã, mas hoje.
É por esse motivo que o apelo lançado hoje e o trabalho que será realizado de hoje até Paris, é absolutamente fundamental. Não cabe aos outros executá-lo, e sim a todas e todos.

Encerrarei dizendo isto e fazendo um apelo a duas personalidades. O Governador, o conhecemos, - como ele mesmo falou – como o “Terminator”. Mas, é raro que um “Terminator” possa ser um “initiator” e um “visionnator’. Caro Governador, quero homenageá-lo por isso. Além disso, ele me faz pensar em um ditado que aplico em minha própria vida e talvez ele tenha aplicado na dele, que é um bonito ditado de um sábio chinês que diz : “Todo homem tem duas vidas e a segunda começa quando ele percebe que ele só tem uma”. Penso que esse ditado é um pouco mais profundo do que possa parecer.

Uma palavra agora de Ban Ki-moon, eu disse a ele que gostei do seu ditado “não existe plano B porquê não existe planeta B”. Penso que tudo se resume por isso.
Outro dia, estava conversando com uma das pessoas que me parecia estar um pouco reticente em relação ao acordo europeu: essa pessoa me dizia que pedíamos esforços consideráveis que seriam todos em vão se acontecesse uma erupção vulcânica. Respondi que por um lado não sabia que existiam vulcões em nosso país e que por outro lado, cada um tem que fazer a sua parte.

A última palavra é esta: nós nos encontramos, seja qual for a idade, em uma situação muito particular. Somos a primeira geração a ter consciência desse fenômeno e, ao mesmo tempo, somos a última geração que pode agir.

Essa situação particular nos dá a todos, responsabilidades excepcionais. A França fará de tudo para que a Conferência de Paris, em 2015, seja um sucesso, e se for o caso, será primeiramente graças às regiões.

Muito obrigado.

publié le 28/10/2014

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