A prioridade é um governo de transição em Damas

Entrevista de Laurent Fabius, Ministro das Relações Exteriores e do Desenvolvimento Internacional da França ao jornal francês « Le Parisien » (08.09.2015)

Após as declarações de François Hollande sobre uma possível intervenção militar francesa na Síria, o Ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, fez um balanço sobre a situação do país.

Um ano após a formação de uma coalizão internacional contra o Daech [=Estado Islâmico ou EI] no Iraque e na Síria, o grupo terrorista parece ainda estar em plena atividade em campo. Como combatê-los de forma mais eficaz?

LAURENT FABIUS: Para erradicar os terroristas, é preciso proporcionar aos sírios alguma perspectiva política. A prioridade é então acelarar as negociações para instalar em Damas, um governo de transição, composto ao mesmo tempo de elementos do regime e elementos de oposição moderada, sem o domínio do Bachar. O que alimenta Daech, é o caos e o desespero de responsabilidade de Bachar al-Assad, na Síria. Enquanto a transição não for colocada em prática, os esforços empreendidos pela coalizão não serão suficientes.

François Hollande anunciou que a França poderia bombardear, a partir de agora a Síria…

LF: Sim. Pois ao mesmo tempo, temos que estar militarmente preparados, já que estamos sendo gravemente ameaçados pelo Daech. Há meses estamos nos mobilizando na luta contra a radicalização, rastreando as redes de terroristas que nos ameaçam, identificando e vigiando os suspeitos que, desde a Síria ou em nosso território, queiram praticar atentados na França. Devemos aumentar esses esforços. Este é o significado das decisões anunciadas ontem pelo Presidente da República: fortalecemos nossa capacidade de inteligência através de voos de reconhecimento, para nos tornar capazes de bombardear, se a situação justifica.

De acordo com nossa pesquisa publicada no domingo, 61% dos franceses apoiam uma intervenção militar terrestre. Não é a única solução para se livrar do EI?

FL: Para realizarmos essa operação, seria necessário várias dezenas de milhares de homens, resultando provavelmente, em pesadas perdas. E para quê? Pensem no que ocorreu no Iraque e no Afeganistão! As tropas militares terrestres conseguiram em ambos os casos derrotar o terrorismo? Nos dois países, as operações só começaram a produzir resultados, tardiamente, uma vez que a dinâmica política tenha sido desencadeada. É esse o objetivo que devemos priorizar. Assim são os próprios sírios, eles mesmo que, com o nosso apoio, se o desejarem, poderão derrotar Daech. De qualquer forma, será um esforço de longo prazo.

Algumas pessoas acusam Paris de recusar o diálogo com Bashar al-Assad ...

LF: Lembre-se que a família do pequeno Aylan, encontrado morto na costa da Turquia, fugia da ameaça não somente do Daech mas também do Assad. O que podemos esperar de um homem responsável pelo caos na Síria, que o Secretário-Geral das Nações Unidas qualificou como criminiso contra a humanidade e que continua a bombardear seu próprio povo? Devo acrescentar que a complacência e os laços estreitos existentes entre Bachar al-Assad e Daech são conhecidos. Ao mesmo tempo, sabemos que precisaremos de uma parte mais estável do regime sírio para combater o Daech, e recuperar se ainda é possível, a Síria, onde cada comunidade poderá ter os seus direitos respeitados. É por isso que devemos trabalhar a nível internacional para uma transição política, na qual Bashar não terá o poder. Caso contrário, Daech continuará a prosperar.

A França acolherá mais 24.000 imigrantes sírios. Será suficiente?

LF: Quatro milhões de refugiados, trinta milhões de pessoas deslocadas pela guerra: a França e a União Europeia têm o dever de dar assistência, diante da amplitude do drama sírio. Desde o início do conflito, 6.268 sírios obtiveram o estatuto de refugiados na França. O Presidente comprometeu-se a fazer mais. Mas a França e a Alemanha não podem agir sozinhas. Todos os países da União Europeia devem desempenhar o seu papel, de forma justa. Diante dessa tragédia em uma escala sem precedentes, a Europa deve ser fiel aos seus valores. A solidariedade também consiste em apoiar o Líbano, a Jordânia, a Turquia ou o Iraque que suportam bem mais do que nós, o peso dos refugiados. Dois milhões de sírios estão hoje, na Turquia; mais de um milhão no Líbano, quer dizer entre um quinto e um quarto da população. A França destinou a essa causa quase 100 milhões de euros. Vou anunciar hoje, um novo esforço financeiro nesse sentido.

publié le 09/09/2015

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